17/09/2021 - Thais Paiva

Conheça duas escolas inovadoras que colocam os princípios de Paulo Freire em prática

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No centenário do educador pernambucano, escolas refletem sobre como seu legado permanece pertinente diante dos desafios da educação brasileira

Em um ano tão desafiador como 2021 é uma feliz coincidência comemorarmos o centenário de nascimento de Paulo Freire, patrono da educação brasileira. Feliz porque em meio à crise sanitária e política que vivemos, a efeméride tem provocado importantes reflexões sobre seu legado e a atualidade de sua pedagogia.

Nascido em Recife em 19 de setembro de 1921, Freire foi um grande defensor da educação democrática, crítica e emancipadora. Rechaçou veemente o que ele chamava de “educação bancária”: aquela segundo a qual os educandos eram vistos como recipientes vazios a serem preenchidos pelo conhecimento do professor. Para ele,  a troca horizontal de saberes e experiências era base para o aprendizado.

Na zonal sul da capital paulista, mais especificamente no Capão Redondo, o CIEJA Campo Limpo bem ilustra este e tantos outros valores freirianos. Não poderia ser diferente: a existência da escola, dedicada exclusivamente à Educação de Jovens e Adultos, é uma consequência direta do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), implementado por Paulo Freire, em 1989, quando assumiu o papel de secretário municipal de educação de São Paulo na gestão de Luiza Erundina. “O MOVA é criado quando Paulo Freire volta ao Brasil após anos em exílio e dá continuidade ao seu movimento de alfabetização de jovens e adultos dos anos 60, que fica famoso por Angicos (RN)”, explica Diego Elias, coordenador-geral do CIEJA Campo Limpo.

Diego se refere à experiência com trabalhadores do campo no interior do Rio Grande do Norte que ficou mundialmente conhecida pelos resultados surpreendentes alcançados em tão pouco tempo. Entre as estratégias do método estava, por exemplo, utilizar o léxico próprio da realidade dos estudantes, como “cana”, “lavoura” e “enxada”, para suscitar o processo de alfabetização. Em outras palavras, diferentemente do que fazia a educação voltada para este público naquela época, dava sentido para a aprendizagem.

Esta contextualização da educação também se faz presente no CIEJA Campo Limpo. Seu currículo, por exemplo, é construído coletiva e cotidianamente, norteado pelos chamados “temas geradores”: interesses e vivências dos próprios educandos que inspiram sequências didáticas que podem trabalhar desde pontuação até multiplicação – tudo usando como contexto situações reais que os educandos vivenciam como uma compra parcelada. 

Mas apesar do caminho para a valorização da EJA ter sido aberto naquele momento da década de 80, não estava garantido. Com as mudanças de gestão na cidade de São Paulo, mudaram-se também as políticas e, em 1993, o então prefeito Paulo Maluf substitui os movimentos emancipatórios e críticos de EJA pelos Centros Municipais de Ensino Supletivos (CEMES). “Os CEMES eram semipresenciais, apostilados, uma espécie de telecurso”, conta Diego.

A Educação de Jovens e Adultos na perspectiva freiriana só voltaria a ter espaço na cidade em 2002, quando Marta Suplicy assume a prefeitura e cria os Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos, os CIEJAs, em vigor até hoje. Muito mais do que uma mudança na nomenclatura, o novo projeto foi revolucionário, porque passou a pensar a modalidade em suas especificidades e potências, explica Diego. “Se você estuda EJA em uma escola estadual ou municipal, você vai para o período noturno, o professor é aquele mesmo que já deu aula ao longo do dia e volta à noite, o mobiliário não é adequado, entre tantas outras adaptações. Nos CIEJAs não: nosso tempo, espaço, mobiliário, grafites, tudo aqui é feito, pensado, gerido e problematizado pela e a partir da Educação de Jovens e Adultos”, explica.

Outro ponto defendido por Freire era a formação de educadores populares para atuar como “animadores de debate” e de círculos de cultura. No CIEJA, esse contato com a cultura popular e com os saberes do território também é incentivado. Um exemplo é a FELIS – Feira Literária da Zona Sul, que sempre conta com a participação dos estudantes da escola e que, inclusive, homenageou em sua última edição Eda Luiz, que foi coordenadora-geral do CIEJA Campo Limpo por 22 anos.

Naquela que se tornou sua mais célebre obra, Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire falou ainda da necessidade de emancipação do oprimido por meio de uma educação conscientizadora e para a liberdade. Uma afirmação especialmente verdadeira para a EJA. “A pandemia mostrou nossa ferida que é nosso sistema social. Uma sociedade que deixa quem não tem o conhecimento das letras e dos números à margem. As pessoas que estão na EJA vêm como uma ferida muito grande, que nós precisamos ajudar a curar e sonhar junto”, defende Diego.

Uma escola fruto da mobilização popular

Em Belo Horizonte (MG), Adriana Viana de Souza, diretora da Escola Municipal Professor Paulo Freire, sabe bem da responsabilidade e do orgulho que é carregar o nome do educador. Baseada na gestão democrática e coparticipativa, a escola preza, desde seu início, por uma relação estreita com a comunidade, lideranças e instituições do território.

A própria história da escola é um reflexo da participação ativa dos moradores. Antes de sua construção, o território – marcado pela vulnerabilidade – só contava com uma creche que funcionava em um espaço improvisado. “A escola é fruto da reivindicação da comunidade, de um processo de mobilização em torno de sua existência”, conta. O nome em homenagem ao patrono da educação brasileira, aliás, foi também escolhido pelos moradores por meio de uma votação. 

Para não perder de vista as referências freirianas, anualmente, a escola promove a Semana Paulo Freire, na qual compartilham com os educadores, estudantes e famílias preceitos da pedagogia do mestre.  “Este ano, com o marco do centenário, promovemos várias reuniões para entender, por exemplo, como os professores entendem a responsabilidade de carregar esse nome no lugar onde trabalham”, conta Adriana.

As rodas de conversa também geraram reflexões e provocações para o futuro. “Uma das propostas que foi discutida foi a questão do protagonismo estudantil, de escutarmos mais esses jovens e entender as demandas que ele têm”, conta a diretora.