Esta matéria foi originalmente publicada no Centro de Referências em Educação Integral
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
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Na Escola dos Sonhos, em Bananeiras (PB), cidade de 22 mil habitantes, não há sala de aula, provas tradicionais, boletim ou um professor à frente do quadro. O que existe é uma escola que organiza o ano letivo em trilhas pedagógicas de três semanas, sempre a partir da curiosidade dos estudantes e articulada às áreas do conhecimento, à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à cultura africana, afrobrasileira e indígena.
“Não temos sala de aula. Todo e qualquer ambiente é de aprendizagem”, conta Leila Rocha, diretora da escola comunitária que atende 217 estudantes de 23 comunidades rurais e três urbanas.
“Sem a curiosidade, não ensino e nem aprendo, como dizia Paulo Freire”, lembra a diretora. A frase organiza a metodologia da escola. Cada trilha pedagógica parte de uma pergunta dos próprios estudantes, que se desdobra em projeto de pesquisa, conectado ao currículo e a ações na comunidade, e sempre acompanhada de gestão democrática, como comitês guardiões, assembleias e grupos de responsabilidade.
“Cada escola vai precisar descobrir seu jeito de fazer, porque depende da identidade local, dos sujeitos que ela atende, e do território em que está”, afirma Leila Rocha.
Quando um estudante encontra dificuldade para realizar sua trilha, pede ajuda primeiro a um colega que já estudou aquele conteúdo, e só recorre ao educador em última instância.
Nesse desenho, a avaliação assume outra dimensão. “Não é classificatória, não é quantitativa. É diagnóstica, processual, participativa, emancipatória”, define Leila. Diagnóstica porque envolve educador e educando em um retrato do percurso. Processual porque acontece o tempo todo. Participativa porque se faz em diálogo permanente. Emancipatória porque sustenta a autonomia e o protagonismo dos estudantes.
Para fazer tudo isso, a escola opera com um conjunto articulado de instrumentos. Toda tarde, os estudantes se reúnem em coletivos com seu tutor para uma roda de partilha dos saberes e apresentam suas descobertas do dia.
Ao fim de cada trilha, o tutor senta individualmente com cada educando e revisa o percurso: o que foi alcançado, o que ficou pelo caminho, o que precisa ser retomado.
Há, ainda, uma autoavaliação ao fim de cada trilha, avaliação das famílias sobre o desenvolvimento do estudante em casa, avaliação entre pares com fichas-guia, culminâncias em formato escolhido pelo estudante, como apresentação, maquete ou vídeo e, ao fim do semestre, os educadores fazem um relatório descritivo de cada aluno.

No fim do ano letivo, a última trilha é dedicada inteiramente à avaliação institucional: estudantes, educadores e famílias avaliam instrumentos, relações, comitês, assembleias, formação docente, articulação com a comunidade.
O resultado alimenta a construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) do ano seguinte, também feito de forma coletiva ao longo da primeira trilha do ano, com pactos sobre convivência, combinados, estratégias e escolhas.
Segundo ela, o desafio inicial está nas famílias que chegam acostumadas à lógica do boletim, e nos estudantes que vêm de outras escolas e levam tempo para se adaptar. Mas, segundo a diretora, depois que se adaptam, “eles não querem voltar para o outro formato”.
“Cada escola vai precisar descobrir seu jeito de fazer, porque depende da identidade local, dos sujeitos que ela atende, e do território em que está. Mas o resultado vai ser o de ressignificar o que é Educação para o educador e para o educando. E eu vejo os meninos aqui com muito mais protagonismo e consciência crítica do ser e do estar”, afirma Leila.
Uma metodologia de avaliação que virou política pública
Experiências como a da Escola dos Sonhos estão na base de um documento que o Ministério da Educação (MEC) acaba de lançar. Publicado em 2026, o guia “Avaliação na Educação Integral: Guia para redes e escolas de Educação Básica” oferece orientações, ferramentas e exemplos para que escolas e secretarias avaliem cinco aprendizagens consideradas centrais ao desenvolvimento integral dos estudantes: empatia, colaboração, criatividade, protagonismo e autoconhecimento.
“A Educação Integral tem um objetivo muito mais amplo do que a transmissão de conteúdos acadêmicos. Por isso, avaliar uma escola exige acompanhar o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões”, afirma Helena Singer.
O material é resultado de cinco anos de pesquisa-ação do programa Escolas2030, parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e a Ashoka Brasil, que reúne 100 organizações educativas no Brasil e mil em dez países.
O guia integra o Eixo Acompanhar do Programa Escola em Tempo Integral, instituído pela Lei 14.640/23.
“A Educação Integral tem um objetivo muito mais amplo do que a transmissão de conteúdos acadêmicos. Por isso, avaliar uma escola exige acompanhar o desenvolvimento dos estudantes em todas as suas dimensões, cognitiva, física, social, emocional, cultural e política, e reconhecer que essa formação não ocorre apenas no espaço da escola”, explica Helena Singer, coordenadora-geral do Escolas2030 no Brasil.
Assista ao evento de lançamento do guia de avaliação:
A ampliação do programa Escola em Tempo Integral pelo Brasil, que estabelece que deve haver “coerência sistêmica entre currículo, práticas pedagógicas e avaliação da aprendizagem e do desenvolvimento pleno”, é uma oportunidade para transformar as práticas avaliativas das escolas.
“A proposta é organizar a avaliação como um processo de pesquisa-ação dentro da escola. O primeiro passo é a construção coletiva de um Marco Zero — diagnóstico que reúne dados formais, históricos, territoriais e quantitativos da escola, além de reflexão sobre indicadores externos, espaço, tempo, saberes, gestão e desafios. Em seguida, a equipe define uma prática educacional a ser observada, escolhe quais das cinco aprendizagens vai avaliar, formula uma pergunta de pesquisa e levanta hipóteses”, orienta Helena, que também é Líder da Estratégia de Juventude América Latina na Ashoka.
A especialista também explica que é a avaliação é um processo construído pelos professores em equipe, a partir de uma metodologia de pesquisa-ação. São eles que pesquisam sobre as próprias práticas, identificam quais aprendizagens esperam que os estudantes desenvolvam e definem onde essas aprendizagens podem ser observadas, como em um projeto, roda de conversa, assembleia ou grêmio.
O guia propõe ainda um caminho de dez passos para a elaboração de indicadores. Em uma escola municipal participante do Escolas2030, o grupo de pesquisa elegeu protagonismo e empatia como aprendizagens a serem avaliadas, ancoradas em práticas de acolhida na quadra e tutoria entre pares. Os indicadores foram do tipo “conduz a acolhida”, “faz propostas”, “pede para ser monitora/or”, “auxilia colega com deficiência a se locomover”.
O papel das redes e das avaliações externas
Desde os anos 1990, a avaliação da Educação Básica brasileira se consolidou em torno do Saeb e, depois, do Ideb, que combina proficiência em provas de larga escala com taxa de aprovação. O Guia reconhece o lugar desses instrumentos, mas alerta para os riscos de tratá-los como medida única de qualidade: a redução do currículo, o esvaziamento da experiência escolar e o estímulo à competição entre escolas em prejuízo da cooperação.

Helena destaca que o guia foi pensado para as Secretarias de Educação ganharem mais confiança em processos avaliativos internos e ampliar a diversidade de indicadores sobre qualidade, que hoje, segundo ela, muito restritos às avaliações externas.
O primeiro passo recomendado às redes é divulgar o material e organizar um grupo de trabalho com as escolas interessadas em construir seus próprios processos.
“As aprendizagens na Educação Integral são contextualizadas. O que quer dizer empatia para um povo originário? Para uma adolescente do Ensino Médio? Para uma criança da Educação Infantil? A resposta precisa ser construída em cada escola, em cada território”, diz Helena.
